segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O que são geossistemas?

Em outro momento já apresentamos, de forma geral, os princípios da teoria dos geossistemas. A partir de agora vamos tentar explicar de forma simples o que eles significam e ajudar o leitor a entender um pouco mais sobre a geoecologia e seus objetivos.

Inicialmente um geossistema foi definido como uma “unidade natural de todas as categorias possíveis, do geossistema planetário (envelope geográfico ou ambiente geográfico em geral) ao geossistema elementar (fácies físico-geográfica)”  (SOCHAVA, 1963, p.53. Tradução nossa).

De modo mais preciso, um geossistema é definido como "uma dimensão do espaço terrestre onde os diversos componentes naturais encontram-se em conexões sistêmicas uns com os outros, apresentando uma integridade definida, interagindo com a esfera cósmica e com a sociedade humana" (SOCHAVA, 1978, p.292. Tradução nossa).

Assim, podemos dizer que um geossistema possui é um arranjo espacial ("apresentando uma integridade definida") que está apresenta um funcionamento definido ("conexões sistêmicas"). Um geossistema é uma configuração, mas também um conjunto de processos em curso.

Desta forma, um geossistema ainda é considerado um sistema dinâmico, aberto e hierarquicamente organizado (SOCHAVA, 1977). Isso significa que ele troca matéria e energia com o seu entorno (sistema aberto e hierarquicamente organizado) e que o regime dessas trocas muda com o tempo (sistema dinâmico). Parece difícil, mas você vai ver que não é.

Ok. Então já sabemos que os geossistemas se caracterizam por um padrão espacial de processos em curson uma determinada porção do planeta. O que a geoecologia busca entender é como os padrões espaciais influenciam os processos naturais e como os processos influenciam os padrões espaciais. mas antes de chegarmos a essas respostas precisamos saber:

Como identificar estes padrões espaciais?

Os geossistemas são identificados pela observação de atributos da natureza (relevo, solos, vegetação, regime de drenagem, etc.) e seguindo-se alguns princípios gerais. Um destes princípios é o da circulação de substâncias (como água, nutrientes e minerais, por exemplo). Assim, sempre que forem detectadas diferentes condições homogêneas para circulação de substâncias, aí poderemos traçar os limites dos geossistemas.

Mas como identificar estas condições?

É simples! A circulação de água, nutrientes, minerais e elementos químicos está condicionada a fatores como o clima, a declividade, orientação e forma do relevo, o regime de drenagem do substrato e outros atributos naturais. Por exemplo, uma área de topo plano, com textura arenosa e que recebe água apenas da chuva vai possuir um regime de circulação de substâncias diferente de uma área de baixada em que a água tende a se acumular em função da proximidade do nível freático (Figura 1).


Figura 1. Diferentes condições locais para circulação de substâncias.

Fonte: o autor.

Não apenas em escala local podemos identificar condições para circulação de substâncias. Em escala regional, podemos indicar outros fatores importantes que podem e tem sido utilizados como indicadores dos limites dos geossistemas, a saber: a continentalidade, os climas regionais, a altitude e a circulação vale-montanha.

Em escala planetária, podemos destacar os movimentos orbitais da Terra, o regime de radiação solar global, a tectônica de placas e a circulação atmosférica global.

Deste modo, podemos entender porque os geossistemas possuem dimensões diferentes e porque eles estão organizados numa hierarquia onde a maior unidade (geossistema planetário) é a própria superfície terrestre e a menor pode ser uma encosta simples.

Em outra série de postagens trataremos da hierarquia de geossistemas e os critérios de sua distinção.

De outro modo, ainda podemos refletir que diferentes condições de circulação de substâncias compõem geossistemas com características distintas. Por exemplo, uma diferença climática é capaz de gerar paisagens completamente diferentes. Onde um clima mais úmido geraria paisagens com um metabolismo mais intenso, dando origem a solos profundos, relevo ondulado e florestas densas, enquanto um clima mais seco resultaria em geossistemas de solos rasos, relevo aplainado e vegetação xerófila arbustiva.

Além disso, podemos dizer que cada geossistema é autônomo, ou seja, possui um regime de funcionamento definido, mas que não é isolado dos geossistemas do entorno.


Em resumo podemos afirmar que:
  • Os geossistemas são unidades naturais com uma dimensão geográfica qualquer;
  • São áreas que se definem por um regime particular de circulação de substâncias;
  • Eles podem ter qualquer dimensão, do sopé de uma encosta até o geossistema planetário;
  • Todo e qualquer geossistema é parte de uma entidade maior (a superfície terrestre);
  • Geossistemas se organizam de modo hierárquico;
  • As diferenças na circulação das substâncias garantem uma variedade de geossistemas;
  • Cada geossistema é autônomo, mas nenhum possui um funcionamento isolado;

Referências

SOCHAVA, V.B. Algumas noções e termos da Geografia Física. Relatórios do instituto de Geografia da Sibéria e do Extremo Oriente. 3. 1963. p.50-59.

SOCHAVA, V.B. Introdução à Teoria do Geossistema. Novasibéria, Nauka, 1978. 320p. Em russo.

SOCHAVA, V.B. O estudo de geossistemas. Métodos em questão, n.16, IG-USP. São Paulo, 1977. 51 p.

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