segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Paisagem e Geografia Física Global (Revisitado). Parte 1

Em 1968, o geógrafo francês Georges Bertrand publicou um trabalho que teve efeito fundamental na geografia física francesa e, por extensão de laços culturais, à geografia brasileira. Tanto é que O autor é considerado, juntamente com Jean Tricart um expoente da renovação da geografia física da França (VEYRET; VIGNEAU, 2002).

O referido texto foi traduzido para o português em 1971, denominado "Paisagem e Geografia Física Global: Esboço Metodológico". Aqui vamos destacar alguns pontos que tem sido alvo de debate sobre o referido texto, apresentando alternativas e discussões sobre eles. O primeiro e mais polêmico ponto da proposta de Bertrand (1968) refere-se ao seu sistema hierárquico de unidades, sobretudo ao uso que o autor faz do termo geossistema. Para o geógrafo de Toulouse, no ambiente natural seriam reconhecíveis seis categorias de unidades naturais: Zona, Domínio, Região Natural, Geossistema, Geofácies e Geótopo.

Neste modelo, o geossistema representaria uma subdivisão de uma Região Natural com dimensões da ordem das dezenas a centenas de quilometros quadrados. Refletindo sobre a aplicabilidade do modelo hierárquico de Bertrand ao Brasil, o geógrafo piauiense Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (1976, p.108) afirma o seguinte sobre os conceitos bertrandianos de geossistemas, geótopos e geofácies: 
"Também aí, nesse nível de associação ou combinações geoecológicas, não se tem o problema resolvido. Os graus de expressão espacial dessas combinações são muito variáveis. Em conversa informal com o colega Aziz Ab'Saber, tive ocasião de constatar sua preocupação com o problema, pois que, os conceitos de Bertrand, exemplificados em unidades observadas nos Pireneus, podem ser encontrados aqui no Brasil em unidades espaciais consideravelmente maiores, ultrapassando de muito as ordens de grandeza da escala taxonômica a que são referenciadas. Assim, ela podem configurar-se com grande margem de variação tanto ascedente quanto descendente. Um geossistema, definido em grande extensão, pressupõe geofácies maiores que muitos geossistemas contidos em outros espaços maiores."

O que acontece é que Bertrand considerava os geossistemas com uma dimensão espacial definida, tornando seu modelo de difícil aplicação no Brasil. Aqui os geossistemas seriam bem maiores do que a dezena ou centena de quilômetros quadrados. O próprio Bertrand abdicou desta concepção em um texto posterior (ver Beroutchachvili & Bertrand, 1978) e passou a abraçar a ideia de que os geossistemas poderiam ter qualquer dimensão, assim como formulado pelo geógrafo russo Viktor B. Sochava.

Assim, a grande dificuldade de aplicação do modelo hierárquico de Bertrand é a quantidade de níveis hierárquicos. A existêcia de apenas 6 níveis (Zona, Domínio, Região Natural, Geossistema, Geofácies e Geótopo) não é suficiente para abraçar a diversidade das paisagens do território brasileiro.

O que fazer então?

Ab'Saber, assim como Walter, sugerem termos mais genéricos como famílias de ecossistemas e complexos biogeocenóticos, respectivamente, evitando definir uma quantidade específica de níveis hierárquicos.

De outro modo, pode-se recorrer a outros modelos hierárquicos. Veja a série sobre Hierarquia de Geossistemas neste blog.

Referências
BEROUTCHACHVILI, N.L. e BERTRAND, G.. Le Géosystème ou Système territorial naturel. Revue Géographique des Pyrénés et du sud-ouest. Toulose. 1978. p. 167-180.

MONTEIRO, C. A. F. Teoria e Clima Urbano. (tese de Livre Docência apresentada ao Depto de Geografia/FFLCH-USP). São Paulo, 1976. 181p.

VEYRET, Y; VIGNEAU, J.P. Geographie Physique: Milieux Et Environnement Dans Le Systeme Terre. Paris: Armand Colin. 2002.




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